RacismoA notícia não é nova, mas é muito relevante: o aluno que passou em primeiro lugar no vestibular da Univesidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos mais concorridos do país, estudou em escolas públicas. Desde a quinta série do ensino fundamental João Francisco Ferreira de Souza estuda em escolas públicas, inclusive o colegial (ensino médio) que concluiu no Colégio Militar de Campo Grande, MS.

João Francisco, de 17 anos, realizou algo que poucos conseguem. É certamente acima da média – na Unicamp fez 759,57 pontos, enquanto a média geral é de 500 pontos. João passou no curso de Engenharia Química, que teve uma relação de 22,4 candidatos para cada uma das 60 vagas que o curso oferece, um aumento de 23% em relação ao ano passado. Se não fosse pouco, o novo universitário ainda poderá escolher em qual profissão vai se formar: além da Unicamp, também passou na Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

João Francisco é realmente inteligente e tem muito mérito pelas conquistas que teve. A pergunta que não sai da minha cabeça é:

Precisavam lhe dar 40 pontos de “esmola” por ter estudado em escola pública e ser afrodescendente?

João Francisco teria passado mesmo assim – provavelmente não em primeiro lugar, mas teria sido inteiramente por mérito próprio. No entanto, nosso governo superprotetor insiste em tratar os sintomas dos problemas do país (principalmente os sociais), e não os problemas em si. Ora, se alunos das escolas públicas não conseguem passar nos vestibulares, isso não significa que o ensino público está deficiente? Não seria certo providenciar para que o mesmo melhorasse? O governo certamente não pensa assim. Se estudantes do ensino público não passam nas melhores universidades, é melhor gerar “artifícios” que os permitam entrar. A Unicamp dá 30 pontos para estudantes que tenham cursado o ensino médio integralmente em escolas públicas pelo programa conhecido como Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (PAAIS).

Se ja não fosse pouco, por que afrodescendentes tem direito à pontos adicionais? Eu sou descendente de italianos – coitados dos italianos, povo sofrido, veio para o Brasil fugindo da guerra. Ainda assim não tive nenhum pontinho de lambuja quando passei na universidade… Minha gente, isso é racismo! Puro e simples: racismo. “Você é negro, tem 10 pontos de brinde. Você, ah, você é índio, tem também. Você não, você é branquinho. Vai estudar.” Que negócio é esse? Estão falando descaradamente que “pretos, pardos e indígenas” são mais burros? Por que? A Unicamp acha que essas raças tem direito à mais 10 ponto, desde que também estudaram em escola pública no Colegial.

A pontuação-esmola só é somada na segunda fase do vestibular, o que já ajuda a não destruir os sonhos de um branco qualquer. De qualquer forma, é injusto:

  • Um pardo que tenha estudado em escola pública tem 40 pontos adicionais no fim das contas.
  • Um branco que tenha estudado em escola pública tem 30 pontos adicionais.
  • Um branco que tenha estudado em escola particular tem 0 pontos.
  • Um preto que tenha estudado em escola particular também tem 0 pontos.

Será que a idéia é igualar as estatísticas raciais de quem entra nas melhores universidades? É a única explicação que me vem à mente. Ou será que alguém se sente em débito com essas raças pelas injustiças que lhes foram feitas no passado?

Será que no futuro isso não será mais um motivo de discriminação? Imagine o candidato indígena na entrevista de emprego. O empregador vai perguntar “você entrou na universidade por algum programa de ‘ação afirmativa’?” Sempre vai ficar a dúvida. “Será que esse indígena é melhor que o branco ali fora. Eu não sei se ele ganhou pontos como esmola.” O pior é que isso deve ser considerado racismo… Não dê o emprego pro indígena e ele processa a empresa porque contratou o branco: racismo. A coisa vai ficando complicada.

Ainda tem mais: ser preto, pardo ou indígena é uma “autodeclaração”, ou seja, você diz que é, e pronto. Não tem como comprovar se é ou não. Se um nipodescendente albino, loiro de olhos verdes se dizer preto, ele é preto. Desde que tenha cursado colegial público, leva os 40 pontos. Que beleza…

A impressão que fica é que o Brasil caiu em areia movediça. Quanto mais se agita para tentar sair, mais afunda. Quem é que decide essas coisa?

ATENÇÃO: Nesse artigo só podem comentar os pretos, pardos ou indígenas, por favor gente!

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4 Comentários em “Ação afirmativa ou esmola”

  1. Francisco disse:

    A maior injustiça é o Brasil ter as escolas publicas tão desvalorizadas como o caso de Sõa Paulo que ficou em uma das ultimas colocações da prova Brasil. Mas o por que disso?
    O governo de São Paulo simplesmsnte o mesmo que governa a quase 12 anos não quer ter prejuizo com as escolas publicas e assim transformando a mesma em uma escola de ensino mediocre e pouco competitiva.
    É impossivel um aluno de escola publica competir vaga com um aluno de escola particular que tem acesso a melhores materiais, laboratorios e biblioteca; e o que o pai de classe baixa vai fazer para o filho (pobrezinho) que sonha em ser médico competir com pessoas que nasceram em berço de ouro falando 3 linguas.
    A ideia de cotas foi otima, porem nao é aceitavel de que o negroi e o indigena tenham melhores cotas que o branco de escola publica, ou vai dizar que não existe branco de escola publica? E esse branco de escola publica por que recebe menos cota que o negro? Isso é injusto.
    Sou a favor de cotas, porem de cotas para alunos de escola publica com qualquer etnia, ambos aprendem no mesmo lugar (escola publica) branco, negro, pardo, indigena e etc, e todos tem o mesmo direito. Cotas iguais para ALUNOS de ESCOLA PUBLICA de qualquer etnia.

  2. Alexandre disse:

    Francisco,
    Acho sua opinião válida, porém continuo pensando que cotas é uma medida que visa tratar um sintoma do problema e não o problema em si.
    Assim, concordo com você que a raiz do problema é o descaso do governo (não só de São Paulo, mas de todo o Brasil) com o ensino de base. Mas fornecer cotas para as minorias, sejam elas étnicas ou econômicas, não é a solução. A solução é melhorar o ensino como um todo.
    Continuo, portanto, defendendo que o regime de cotas é ridículo e ineficiente, para qualquer caso.
    Se eu fosse dono de empresa, não contrataria uma pessoa que se formou tendo acesso à faculdade por meio de cotas, porque sei que a carga de cultura (entenda estudo) que essa pessoa carrega é menor do que a de outra pessoa, que entrou por mérito – independente de sua cor, raça, ou condição financeira.
    Continue comentando. Abraços!

  3. Cil disse:

    Sou negra, estudei a vida inteira em escola pública e passei um ano estudando para o vestibular. A escola não oferecia condições, mas peguei o programa de estudo e me organizei para estudar e tirava dúvidas com os professores na escola. Passei com pontuação alta o suficiente para ser aluna no curso de medicina, embora tenha feito vestibular para química.

    Essa política de cotas é um esmola, um ultraje, uma vergonha para os negros do Brasil, só perdendo para o período escravocrata. Agora eles vão dar as vagas na universidade, e investimento na educação básica que é bom… nada!!!

  4. CLAUDIA disse:

    O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Benedito Barbosa Gomes, sobre o potencial transformador da Ação Afirmativa. “Entre os objetivos almejados com as políticas afirmativas está o de induzir transformações de ordem cultural, pedagógica e psicológica aptas a subtrair do imaginário coletivo a idéia de supremacia e subordinação de uma raça em relação a outra.” Ele sabe o que diz,já você se acha senhor da razão?Não adianta radicalismo!

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