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Superinteressante 247A Superinteressante de dezembro de 2007 (ed. 247) foi uma ecochatísse só. Claro, é importante conservar o planeta e estamos começando a sentir na pele (literalmente) os efeitos do aquecimento global, mas o novo redator-chefe, Sérgio Gwercman pecou ao encher uma edição inteirinha com assuntos “eco”, mesmo que essa seja uma edição especial, a segunda num mesmo mês. Pela primeira vez - e vamos torcer, a última - a capa da Super é verde. Deu saudade do recém-afastado, ex-redator-chefe da revista, Denis Russo Burgierman.

Superinteressante 246Ainda bem que dezembro passou rápido: as festas e férias parecem acelerar esse mês, E com a eminência da chegada de janeiro, veio a nova edição da Super, que traz na capa o tema “Personalidade”. Antes de seguir em frente, no entanto, vamos voltar um pouco, mencionando a primeira edição de dezembro, número 246, que traz na capa a controversa matéria sobre “Sexo na Igreja”, de Maurício Horta, sobre alguns casos que estão vindo a tona com o passar do tempo na Igreja Católica. Eu sou particularmente contra religião, e isso certamente inclui a instituição “Igreja Católica”.

Aliás, para mim, qualquer religião é veneno. Antes de escrever me xingando, entenda meu ponto de vista: fé e espiritualidade tudo bem, mesmo que eu não tenha nenhuma das duas. Religião é veneno. Como fui criado Católico, e é a religião que conheço melhor, usarei exemplos dessa crença, quando necessário, mas entenda que meus pensamentos se estendem à tantas outras que temos por aí.

Na última edição, de janeiro, diversos leitores católicos fervorosos escreveram criticando a edição polêmica do começo de dezembro. Veja alguns exemplos:

Será que a Igreja teria tantos seguidores e duraria tanto tempo se fosse tão ruim assim?

O leitor José Ailton Moreira, de Moeda, MG acha que a Igreja Católica não é tão ruim. Eu concordo com ele, em partes. O lado caridoso da Igreja é ótimo e costuma ajudar as comunidades ao seu redor. Se o Vaticano não quer abrir seus riquíssimos cofres para ajudar diretamente, pelo menos os padres conseguem mobilizar seus fiéis e arrecadam recursos para ajudar quem precisa. E os mais de dois mil anos da Igreja só podem ser explicados pela necessidade humana de crer em algo maior, em algo que não podemos explicar. Espiritualidade.

Por outro lado, o lado negro da Igreja é deveras sombrio. É fato que as denuncias de abuso sexual e pedofilia atribuídos à membros da milenar instituição só vêm aumentando, mas o aumento das denuncias pode não ser diretamente proporcional ao aumento dos casos que realmente ocorrem. Me parece que o poder que era exercido pela Igreja está minguando com o passar dos anos, e isso me leva a perguntar: se agora tem gente abrindo a boca, será que antes a Igreja não se encarregava de manter essas bocas fechadas? O que podemos pensar a respeito da carta de Junior Percorelle, de João Pessoa, PB:

Fui ser coroinha na Igreja Católica. Mas lá não encontrei Deus. Encontrei vários padres que se tornaram meus amantes em troca de um pouco de comida.

Há ainda o relato de Maria Mello (nome fictício) que entrou em um convento com 13 anos e lá encontrou “homossexualidade e exposição sexual entre freiras, aspirantes, padres e pessoas da sociedade”. Mesmo com esse tipo de relato, há quem se recusa a acreditar. Enrique Barboza Fornazier de Cachoeiro de Itapemirim, ES pensa:

Temos que continuar confiando em Deus, apesar de sermos pecadores.

Qualquer um pode fazer o que quiser, acreditar no que quiser, mas me ofende quando se referem às pessoas como “pecadores“. Eu, particularmente, me recuso à ser julgado pelas crenças alheias! Se me rotulam “pecador”, qual rótulo devo empregar ao me referir à Igreja da qual fazem parte? A mesma Igreja Católica que há alguns séculos cometeu alguns dos maiores genocídios da história (leia sobre a Inquisição, ou as Cruzadas). A mesma Igreja que atrasou - e ainda tenta atrasar - os progressos da ciência, baseada apenas em suas retrógradas e ultrapassadas escrituras. A Igreja que é contra o uso de preservativos, aborto e células-tronco. Que já insistiu (e matou gente que discordava) que a Terra era o centro do Universo. A Igreja que é toda a favor da família, mas hipócritamente proíbe seus sacerdotes de terem a sua. A Igreja é, no mínimo, um instituição extremamente ambígua e atrasada.

E o pior cego é aquele que não quer enxergar. Será que essas pessoas já pararam para pensar sobre os “fatos” que têm como certos? Sobre as “verdades” que lhes foram impostas? Esse tipo de cego é o que duvida da Teoria da Evolução e acredita cegamente na Bíblia. Criacionistas e seguidores do Design Inteligente. Em outro exemplo, tirado da mesma edição de janeiro, Julianna Paes Batista não acredita que “viemos de uma ameba ou da poeira cósmica”:

Parem para pensar na máquina que é o corpo humano, pensem no milagre da concepção. Como podem acreditar que tudo isso se desenvolveu do nada, como o passar dos milênios?

Como é que se pode não pensar isso? Somente se escolhendo-se ignorar todas as evidências que temos por aí. Por outro lado, a única evidência da qual se dispõe em contrário é um livro antigo, compilado por políticos, que deveria ser entendido como uma coleção de metáforas escritas para guiarem a moral de antigos e ignorantes homens, mais dois mil anos atrás.

O fato é que religião é um conjunto de regras criadas pelos homens, o que torna-a extremamente suscetível à falhar. E espiritualidade e fé são sentimentos que qualquer um pode ter, independente dessas regras. Você conhece algum Católico que não comete pecados? Eu não. Nenhum. Nem a mais beata das velhinhas que sentam-se na primeira fila da missa de domingo. A própria religião torna aceitável pecar: basta você se confessar que tudo é perdoado. Assim vira bagunça. Se você tiver sua própria fé, fizer sua oração particular a coisa toda torna-se menos hipócrita.

E o pior é que a Igreja poderia ser, hoje, uma instituição muito mais forte, influente e benéfica. Não vai deixar de haver religiosos e fiéis, mas se a Igreja se modernizasse, a influência positiva que traria para todos seria muito maior. Será que não é possível ter uma Igreja moderna, porque isso acaba com a própria natureza da instituição? Será que o Vaticano teme alguma coisa com a modernidade? Religião não se discute? Por que não?

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