Tiozinhos do Ciretran

Burocracia

É um dos mais claros exemplos do funcionarismo público da pior qualidade: Gente cansada, lenta, desmotivada, quase morrendo de tédio, engessados por quilos de burocracia e longos prazos. Herança dos portugueses, e parentes dos cartórios. Estou falando dos Ciretrans, com seus tiozinhos indispostos. Os caras até andam devagar, arrastando os braços que parecem pesados com seus ombros curvos e cansados. Tudo parece acontecer em câmera lenta ao redor deles: o carimbo é levantando e cai em direção do papel quase que apenas com a força da gravidade – a mão que o guia apenas aumenta seu peso – queda livre em direção ao formulário.

Quando você chega no guichê esperando para ser atendido, eles fingem que não estão te vendo pelo máximo de tempo que podem, sem que isso se torne óbvio demais para você, o paciente motorista que espera sua vez de descobrir o próximo processo burocrático que terá que enfrentar. Paciente sim, porque se você exibir qualquer sinal de estresse, os tiozinhos detectam e tornam a sua vida ainda pior: aumentam os documentos que deve apresentar, pedem cópias autenticadas e firmas reconhecidas.

Você entra na fila da vistoria e procura diminuir o seu próprio rítmo, se não fica doido. Finalmente chega a sua vez, e o tiozinho – vestindo uma camisa pólo com o logotipo do Ciretran – se move lentamente, cabisbaixo até chegar a frente de seu veículo. Ele mal levanta a cabeça, olhando pra você por sobre os óculos retangulares que estão apoiados na ponta do nariz. Ergue uma das mãos como que fazendo um grande esforço, aponta para um dos lados e resmunga “seta”. Você obedece e liga a seta. Assim vai para uns poucos e ridículos testes que eles fazem. Testam as luzes e buzina do seu carro… Bela vistoria.

Você junta todos os documentos – ah, sim, é sua segunda visita ao Ciretran! No dia anterior eles te passaram a lista interminável de papéis para provar que você é você, que seu veículo realmente é seu e que você pagou mais uma taxa absurda para o governo: são recibos de pagamento, cópias e requerimentos com firmas reconhecidas em duas vias. Coloca tudo numa folha de almaço (sim, isso ainda existe), escreve seu nome e entrega no guichê quando alguém finalmente te enxerga. Então te dizem que você tem que voltar no dia seguinte para pegar algum documento assinado pelo delegado. Tudo bem, o delegado deve ter mais o que fazer – ele não vai ficar assinando a papelada gerada pelo Ciretran, então você, educado, agradece e se planeja para voltar no dia seguinte.

Grande surpresa: o delegado ainda não assinou o tal documento. Volte amanhã. Mais um dia perdido. E você na mão do Ciretran, tentando provar que é você mesmo, que seu veículo realmente é seu e que você pagou a maldita taxa. Quando finalmente pega o documento com a assinatura do delegado, deve se dirigir ao posto de lacração – finalmente vão instalar sua placa! Como você pode ter pensado que seria assim tão fácil? Entregue o papel vistado pelo ilustríssimo senhor delegado para o funcionário do posto e aguarde mais cinco dias úteis para fazerem sua placa.

Nossa, chega. Essa história vai longe.

Ilustração: Renato Alarcão

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1 Comentário em “Tiozinhos do Ciretran”

  1. Dito Melo disse:

    A situação do Ciretran de Caraguatatuba!

    Está crítica dei entrada para renovação da minha CNH em 26 de setembro de 2008, mas segundo os funcionários a greve da polícia civil é que está causando. Quero saber quem poderá me auxiliar. Sou motorista profissional e dependo da CNH.
    De quem é a culpa, será do Serra?

    Dito Melo

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